NDPL - NÚCLEO DE DEFESA PESSOAL DE LISBOA

   
   

 

 

PEDOFILIA NÃO, PERVERSÃO

 

O QUE FAZER E O QUE EVITAR...

 

 

 

Nos últimos meses este é um tema que tem feito correr rios de tinta, e ocupado a mente e as bocas de todos nós. Fala-se muito e, como bons portugueses, todos temos uma teoria a apresentar. Por um lado isto é bom, pois procedendo assim encaramos os acontecimentos duma forma proactiva, não como vítimas indefesas e impotentes; por outro, é mau, pois “quem conta um conto acrescenta um ponto”, e às duas por três, num estilo bola de neve, a opinião pública constrói (ela própria ou com certas “ajudas”…), uma situação virtual de alarme muito pior do que a realidade.

Que há pedófilos é um facto provado (se bem que os mesmos tenham sempre existido, não sendo um fenómeno só de agora); que há redes organizadas (não de pedofilia mas de “carne humana”, o escalão etário é apenas uma especialização exigida pela procura da “clientela”) também é sabido; que todos nós devemos tomar precauções é um facto do senso comum; mas as coisas estão a ir mais além do que é sensato.

Para nos situarmos, importa definir o que é um pedófilo: a palavra “pedofilia” vem do termo grego paidos, que significa criança ou infantil; o dicionário diz que pedofilia é o “grande amor ou dedicação às crianças”; pedófilo é por isso aquele que gosta muito de crianças (sem por isso querer necessariamente ter com elas relações sexuais).

Há pouco tempo atrás um amigo meu, professor de profissão, contou-me que tinha sido veladamente acusado de pedofilia! Em causa estava uma mudança de turma duma menor, e a tia dela disse que o meu amigo “tinha, por várias vezes, acariciado o cabelo da pequena, e uma vez até lhe tinha dado um beijo”. Vamos lá, pessoal! Por esta ordem de ideias não há quase ninguém que não possa ser acusado de pedofilia!!!

E o pior é que, com este clima de histeria colectiva, se a tia se tivesse dado ao trabalho de fazer uma acusação formal junto das autoridades, é muito provável que o professor tivesse tido problemas, podendo ir até à famigerada “detenção preventiva”, agora muito em moda.

O facto é que estamos mesmo a exagerar. Eu próprio, quando vejo na rua uma criança que, pela sua inocência, beleza ou graça, me enternece e me leva a dizer-lhe algumas palavras e mesmo (horror dos horrores!!!) fazer-lhe uma festa, sinto-me comprometido e pouco à vontade, sabendo como sei que há pessoas à minha volta que podem perfeitamente interpretar o meu gesto deste modo.

Espero que não cheguemos à “perfeição” das escolas americanas, em que há bem pouco tempo um estudante foi expulso por dar um beijo a uma colega; idade dos intervenientes: respectivamente 6 e 5 anos!

Como vimos o termo pedófilo é mal aplicado: pedófilos somos todos nós, pelo amor que sentimos pelas nossas crianças; todavia, só alguns poucos é que, pervertendo esse amor, vão demasiado além e transformam as crianças em objectos sexuais, tal como o fazem também com prostitutas e mesmo com parceiras ocasionais. Acerca disto, o dicionário define como perversão a “passagem moral do bem para o mal, o tornar mau, corromper, desmoralizar, degradar, alterar, desnaturar, desvirtuar”. Um pervertido seria então alguém corrupto, depravado, mau, ruim, malvado, estendendo-se estas características inclusive ao campo sexual. Creio que o termo mais correcto para designar estes indivíduos seria pervertidos. Mas adiante.

Abstraindo-me das causas que levam alguém a um comportamento destes, um pervertido é um doente. Não que isto constitua no plano prático uma desculpa: o psicótico assassino é igualmente um doente e não vou querer conviver com um só porque talvez tenha tido uma infância lixada e sido brutalizado pela família e/ ou vida. Isso transcende o âmbito deste artigo, passando ao campo da psiquiatria e psicoterapia.

É só para lhe dizer que não entre “em órbita” apenas porque alguém olhou para o seu rebento, o achou lindo/a, o acariciou e até passou a ter por ele uma simpatia e carinho especiais, podendo (se for um vizinho, amigo da família, etc) passar a brincar com ele, passear, passar tempo, etc. Tudo isto deve ser encarado com bom senso: se isto acontecer com um vizinho, amigo ou conhecido, pode ser normal; se com um perfeito desconhecido, pode ser normal ou não; mesmo se você for um tipo desconfiado (e quem não o é com as histórias que correm por aí?) dê-lhe o benefício da dúvida, tomando um mínimo de precauções, claro. Doutro modo, acabaremos por tornar a nossa sociedade ainda mais paranóica e cínica do que ela já é. E lembre-se de que, segundo as estatísticas, há mais violações e abusos por parte de parentes e elementos da família que contactam directamente com a criança do que por parte de desconhecidos ou elementos externos. Por outro lado, há também pervertidos femininos.

Então, como proceder? Primeiro, não entrar em paranóia, uma vez que a criança vai captar os seus sinais de ansiedade, por mais subtis que eles sejam. Para aumentar a margem de segurança, deve responder às perguntas da criança sem tabus, com toda a honestidade (de acordo com a sua capacidade etária de compreensão) mas sem entrar em detalhes exagerados que a poderão assustar e tornar temerosa, insegura e anti-social. Se a criança for apoiada e compreendida, sentir-se-á protegida, por isso menos receosa.

Mantenha-se atento e seja sensível às pistas que ela lhe dará: deixe que seja a própria criança a orientá-lo; os sintomas que podem constituir sinais de alerta são perturbações de sono, excitação ou melancolia sem uma causa aparente, dores de cabeça, barriga ou outros sintomas do género, problemas na escola, alterações comportamentais inexplicáveis (enurese, rebeldia, agressividade), etc. Se a criança lhe disser que tem um segredo que não lhe pode contar, investigue indirectamente, não lhe perguntando qual é o segredo mas sim quem lho pediu, quando, onde, etc, até confirmar ou não. Se se recusar a ir a casa de alguém ou a ficar com alguém não a force, mas pergunte-lhe do que é que não gosta em casa de X, ou ao que é que brinca com Y.

As crianças não devem desconfiar de todos os adultos, isso faria com que crescessem duma forma extremamente insegura, provocando sequelas psicológicas inevitáveis. Diga à criança que se deve confiar em quem nos toca, abraça ou beija como amigo, e mostre-lhe na prática a diferença entre um toque amigo e outro que poderá não o ser, pois viola o seu direito à  intimidade. Ensine-lhe que ele/a tem todo o direito a dispor do seu próprio corpo e que, se alguém tentar fazer-lhes ou levá-los a fazer algo que viole esse direito, isso é errado e deve ser denunciado imediatamente. É importante estabelecer limites, mas de modo a que a criança não associe isso directamente com sexo, o que poderia fazer com que o considerasse algo sujo e pecaminoso.  

O essencial da segurança infantil é constituído por duas palavras: prevenção e controle. Você deve conhecer todos os pormenores que dizem respeito à vida e actividades do seu infante: horários, brincadeiras, locais, colegas, vigilantes, educadores, pessoal empregado, etc. Crie mecanismos de segurança, como códigos (p/ex, combine que quando a mandar buscar por alguém que ela não conheça lhe dará uma senha secreta que só ambos saibam; as crianças gostam de brincar aos espiões). Conheça e observe os familiares, infelizmente uma parte maioritária das violações e abusos tem lugar no seio da família; saiba sempre onde está o seu filho/a, e com quem; nunca deixe o seu filho sozinho no carro, em casa, numa loja, no parque; nunca deixe que brinque sem vigilância na rua, mesmo que acompanhado por outras crianças.

Diga à criança que evite os contactos desnecessários com estranhos, e não lhes forneça quais quer informações; se seguida ou perseguida, se puder deve fugir a correr, dirigindo-se imediatamente a um adulto que esteja dentro duma loja e pedindo-lhe ajuda; se não puder fugir deve gritar. Diga-lhe para andar na rua pelo menos aos pares, nunca sozinha; evite zonas isoladas, escolhendo sempre locais com gente; recuse boleias e presentes de estranhos, e nunca acompanhe um estranho a pé seja onde for; comunicar imediatamente ao polícia (o polícia é um amigo) ou a um adulto próximo quando alguém as molesta (mais tarde aos pais) ou gritar sem parar até o estranho se ir embora; nunca sair de casa sem dizer aonde vai e com quem; quando o seu filho já for à escola, cronometre o percurso e vá levá-lo/ buscá-lo. Quando ele não puder ir à escola avise-os. Quando o seu filho faltar exija que o avisem imediatamente.

Se a criança for ainda muito pequena, não complique e use linguagem e simbologia o mais simples e natural possível. Ensaie os procedimentos de segurança com os seus filhos, de início pelo menos uma vez por semana, depois uma vez por mês. Faça-o numa tónica meio a sério meio a brincar, mas de modo a que eles compreendam que é algo de importante. Desta forma, sem dramatizar e sem lhes criar medos desnecessários, dar-lhes-á uma ferramenta que mais tarde lhes poderá ser muito útil para sobreviver na rua. E, quando eles foram mais velhos, leve-os a treinar prevenção e Defesa Pessoal.

 

 

 

   

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